Lunes, 28 de julio de 2008

 

 

 


 

Vital Corrêa de Araújo

 


Antônio Campos, escritor, acadêmico (Academia de Artes e Letras de Pernambuco), cronista, conferencista, pesquisador do livro como objeto cultural e ensaísta, é também poeta, Lança um primeiro livro de poemas – e um livro de primeira.

Essa primeira recolha, levada à estampa com o selo da Escrituras, editora de São Paulo (e impressa pela EBGE – São Paulo, do dinâmico José Ubiracy), sob o titulo Portal de Sonhos, revela algo incomum, e assim surpreende. Em geral, um impulso muito comum leva o poeta na montagem do primeiro livro a uma seleção pouco rigorosa (mesmo anárquica), concedendo direitos de cidadania poética a uma série de versos , apenas com valor histórico (os primeiros poemas) ou sentimental.

Segue-se depois a tarefa penosa de revogá-los e excluir da obra definitiva.

A minha consideração, como leitor, sob o quilate dos poemas expresso a seguir.

Uma astúcia – e um equilíbrio de extração grega – uma vontade lírica conseqüente orientaram a estrutura, concepção e composição de Portal de Sonhos.

É, como diria Drummond, um livro breve, mas veloz.

Valoriza o sonho (inconsistente como o éter) e sabe que “o sonho faz, no erguer da asa, até mais rubra a brasa (Shakespeare)”

O livro se estrutura em duas partes, conformando vinte temáticas, expressas em poemas breves, em que a precisão vocabular (ou seleção do repertório da língua) e a concisão lírica são exemplares, demonstrando amadurecimento, na lida com a palavra artisticamente considerada, bem como apuro e acuramento, na firmeza da última lima. (que mantém o nível poético alto em todo o livro) e na utilização da voz poética, nunca confundível com a pessoa do autor dos versos.

Cada parte do livro contempla 10 temas (a 1ª, com 18 textos, e a 2ª, com 23).

Em suma, o poema Portal de Sonhos contém 41 textos, de tal modo e com tal astúcia estrutural de composição que não fica fácil quantificar os poemas em si.

Percebe-se, sobrepairando ou permeando o aparato temático visível, um tópos (ou motivos) submerso, em que o tempo, a vida e o ambiente (o planeta terra natal) são personagens.

O carpe diem flagra-se em passagens como “e não desespere, aproveita a vertigem da paixão, enquanto é cedo”, “cada coisa vem a seu tempo e dura apenas o seu momento”.

O tema da duração temporal e humana e intemporal natural estão presentes em quase o todo dos poemas, conforme a correlação da temática mostra: espera, manhã, idade, safra, paixão, duração etc.

No poema anafórico (último tema da 1ª parte), O cavaleiro, é possível sentir o tempo, de tocaia, ao longo das 10 estrofes. Flagra-se também uma azáfama de (leit)motivos relacionados com a paisagem natural (frutos, cores, rios, pássaros, cavalos), com o ambiente cultural e geográfico Nordeste.

Pedras-de-toque, num apanhado rápido: “tanto cobre-se de ouro, como se abre em chagas”, “o rio castanho como o mel e a crina dos cavalos”, “para que as cores se sintam, Deus pintou a Natureza, com todas as tintas”, “a safra, a messe da solidão, o sofrimento domesticado, a vinda da palavra, para o nosso lado”, “ a espera é consciência do tempo, hora e momento, aprendizado com a terra”, ao balanço da imaginação, na rede do ser, “dispara o coração, procuro domá-lo, sinto o vento lavando a várzea, correndo mais de cem cavalos”.

Nesta última imagem, “correndo mais de cem cavalos”, Antônio Campos se supera e avança, como poeta, ao nível dos melhores imagistas, de agora (e aqui).

No entanto, a texto primo, elejo o poema Aprendizado com a terra (titulo que é um verso do poema A espera), em que, no âmbito de 47 versos e 12 estrofes, AC alia, ao telurismo, a sinceridade da emoção por Pernambuco e traduz esse estado, numa composição poética, marcada pelo aprendizado cabralino de Educação pela pedra, e sulcada por uma dicção poderosa, que exprime uma imagética (igualmente soberba).

O poema Aprendizado com terra forma, com A duração, O cavaleiro, Paisagem, Reino do Verde, No Alpendre e Mundo, mundo, um (sóGui?o outro grande poema, que é uma lição das coisas de nosso tempo, na concepção humana e poética de Antônio Campos.

A propósito, num poema (A espera), de 4 estrofes e 16 versos, é significante – e simbólico – o amontoado de termos (palavras) do campo semântico “tempo” Espera (4 vezes), momento ( 3 vezes), tempo (6 vezes), além de: sono, partida, instante, vôo, hora, terra, estação, sol, noite, verão, inverno, antes, depois.

Chamo à colação tal poema, graças à criatividade (com o objeto palavra) demonstrada no campo complexo da correlação semântica (mais intuitiva), em que arquétipos e ricas associações vocabulares (do eixo sintagmático da linguagem) operam em tal freqüência, que não saturam mas inauguram um estilo singular na nossa poética.

Agora, considero o texto de Portal de Sonhos, sob o estalão da criação poética.

A poesia, esse quid, essa forma do espírito, esse plus do humano, essa marca da verdade do mundo no homem, cerca o mistério da vida, completa a existência, porque decifra o ser, conjuga-o. ilimita, torna o mundo humano – ou funda-o – conforme o divo Holderlin asseverou, e Heiddger deu fundamento e conseqüência. De modo magistral – e poético – o acadêmico e poeta Antônio Campos, presidente do Instituto Maximiano Campos, curador da FLIPORTO, escreveu que a poesia é um destino. Acrescento: destino humano e destino da razão, porque a poesia instala-se no espírito e estende-se à página, quando a censura, o interdito, a oni (préGui?o potência do racional (egoístico e autoritário) são vencidos, superados, ou melhor, são escanteados pela força criativa que jaz no ser humano, permitindo abrir-se a baliza, pela irrupção (ou extravasamento da bacia) do inconsciente, dos nossos estratos (ou substratos) criativos, que nos tornam realmente humanos (que são ocultos, por definição, tornando-se visíveis ou operantes pela poesia). É aquinhoado, agrilhoado, batido, libertado por essa necessidade que qualquer um se torna poeta, e nem ao menos entende essa disponibilidade, esse apoderar-se do espírito poético de seu corpo (organicamente considerado em toda a sua extensão complexa). Daí que, desde Platão, falava-se na possessão poética. É realmente uma força que nos coloniza, nos possui, direciona ao que há dentro e assim permite ver o que há fora. Pela poesia, vemos além de qualquer simulação, distinguimos além e aquém das aparências, que é a festa do racional (monopolizador da práxis) em nossos olhos mortais. A poesia nos faz ver o invisível em todas as suas dimensões, em toda sua concretividade e conexões com o humano. É essa compulsão (ditada pelo que nos faz, torna e perdura de mais humano) que alveja o poeta Antônio Campos, levando-o a terçar armas com o poético, a escavar o id com o buril da alma em riste, a desentocar o intimo e expô-lo a público. É uma vitória mais que pessoal a decisão de ser poeta e abrir os diques da represa do criativo, deixando o espírito correr como cavalo selvagem, para o leito da página, onde o aguarda o pasto macio e meio demoníaco da palavra – em – poesia, diva ração que Deus ao homem concedeu.

Ex-positis, considero Portal de Sonhos êxito e pórtico, ingresso e fuga ao êxtase laborioso da palavra poética, a serviço da realidade do mundo humano.

Ou seja, como consta do prefácio de Antônio Campos, para o livro do mestre Sébatien Joachim sobre um poeta pernambucano: a poesia é para nos compreendermos, não para sermos compreendidos.

 

 

 ___________________

CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos. São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia. Apresentação de Lucila Nogueira.

 

 

 

          

 

"[...] Antônio tece agora para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e nessa viagem com que todos nos defrontamos."

Lucila Nogueira

 

CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos. São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.

                                         

          

 


Tags: portal de sonhos, fliporto, artes y letras, pernambuco, lucila nogueira

Publicado por ChemaRubioV @ 20:49  | AGENDA CULTURAL
Comentarios (0)  | Enviar
Comentarios