Domingo, 28 de septiembre de 2008

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Frederico Pernambucano de Mello (*)

 

             O livro abre um painel bem amplo sobre o que foi a Revolução de 30 em nosso país, ainda que diretamente referenciado ao quadro do movimento no Recife, única cidade em que os fatos assumiram caráter “genuinamente popular”, como asseverou Barbosa Lima Sobrinho em seu livro clássico de 1933, sem jamais ter sido contestado. Curiosamente, nenhum livro especificamente sobre as ações no Recife havia sido publicado até agora.
          Quanto a esse âmbito pernambucano, o estudo reporta o avanço das ações a cada dia e a cada hora, a partir do início tímido dos combates na madrugada de 4 de outubro, um sábado, até se chegar ao resultado da substituição de uma oligarquia do açúcar, como a chefiada por Estácio Coimbra, por outra equivalente, também ligada ao açúcar, resultante da ascensão de Carlos de Lima Cavalcanti, ambos usineiros bem sucedidos.
         No plano nacional, o movimento emerge como pórtico de entrada do Brasil no século XX, ao desnudar a exaustão da chamada política do café com leite, que privilegiava os Estados hegemônicos de São Paulo e Minas Gerais com a alternância no poder federal, impondo a exclusão das demais unidades federadas, num cenário que se ofuscava ante a crise mundial do nosso principal produto de exportação, o café, em meio ao crash econômico de 1929.
             A superação do modelo agrário-exportador, de base rural, vindo do período colonial e seqüenciado no Império, abrindo campo para a ascensão do modelo industrial-capitalista, de perfil urbano, marcará a face do país pós-1930, em que se poderá sentir a emergência de uma burguesia recheada por comerciantes, burocratas e militares, sensíveis à chamada questão social, de que não tomavam conhecimento as oligarquias decaídas em 1930. É quando surgem e se afirmam tendências irrecusáveis, como as do voto feminino e do voto secreto, a previdência social não restrita a marítimos e ferroviários, o sindicalismo apoiado pelo Poder Público, a industrialização, a urbanização, a abertura de estradas. O Brasil começava a vencer a tragédia de ter seus dirigentes eleitos por não mais que 3% de um universo de 35 milhões de habitantes
         O afã modernizador dos anos 20, os Anos Loucos do pós-guerra 1914-1918, insinuava mudanças a todo custo. O exemplo dos milhões mortos nos campos de batalha da Europa clamava por que se vivesse a vida de modo intenso, soltando os sentidos aos prazeres. A Semana de Arte Moderna, em São Paulo, e o Movimento Regionalista, brandindo o trinômio região-tradição-modernidade, aqui em Pernambuco, ilustram a tendência. As mulheres subiam as saias acima dos joelhos com a melindrosa, metiam o cigarro no bico, como as atrizes de Hollywood, por trás de piteiras longamente extravagantes, e derrubavam as cabeleiras, chegando ao radicalismo do corte à la garçonne.
        Os tenentes, mobilizados desde o episódio dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, exigiam a purificação dos costumes políticos e a verticalização do Poder Público. Vem de 1930 a dilatação do Poder Executivo ante os demais poderes, Legislativo e Judiciário, hoje tão comentada; o combate ao poder descentralizado e periférico das oligarquias estaduais, desidratando-se a força dos coronéis-chefes políticos, sobre cuja capilaridade municipal apoiavam-se os governadores de Estado, a ponto de falarem grosso com o presidente da República, quase de igual para igual.
      Como se poderá verificar da leitura do livro, 1930 não é apenas um capítulo curioso da história do Brasil, em que se opera a troca do rótulo de República Velha pelo de Nova República: é a explicação do que somos hoje, nas expressões econômica, social e política. Para o bem ou para mal, nasceu ali, com pólvora e com sangue, o Brasil de nossos dias.
 

TRAGÉDIA DOS BLINDADOS: A REVOLUÇÃO DE 30 NO RECIFE, Frederico Pernambucano de Mello, Recife, Ed. Massangana – Fundação Joaquim Nabuco, 2007, 192 p. il, prefácios de Paulo Cavalcanti e Socorro Ferraz

 

 

 

 

 


Tags: TRAGEDIA DOS BLINDADOS, revolucao de 30 no recife, pernambucano de mello, brasil, politica, social, historia

Publicado por ChemaRubioV @ 14:36
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